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sábado, 31 de maio de 2014

Entradas, saídas e bandeiras

Mãe diz: Filho, tá na mesa, ‘mede’ a minha glicose
O pai que é o filho amorosamente obedece
- Vem preta, segura a minha mão! – e não só a mão ele segura
Ele carrega, embala e cuida de um coração, pequeno, parece frágil
 Mas aguenta toneladas de mágoas – saídas de filhos que vão e voltam

A Bandeira dos pais é amor, feita de um tecido alvo, cor tranquila
Mas que serve como toalha para enxugar angústias que escorrem
Com gosto amargo e dolorido, talvez outrora fosse feito
De lâminas que machucam e tingem de vermelho pela intensidade
Que é o seu amor: corta, mas protege.

- Preta, já tomou o seu remédio? – preocupadamente o filho-pai pergunta
E assiste ao futebol, com a agonia quando o Vasco perde ou empata
- Que merda, esse time não tá jogando nada!-  Mas volta-se para a esposa
Com a candura e o apego de um jovem casal, namoram, mas discutem
Mesmo de leve quando o volume do televisor excede
 – Abaixa isso aí que eu to no telefone!

- Ô Bem, to preocupada com o horário, André já chegou? – E mais uma noite
Ela se prepara para dormir tarde. Quanta preocupação com os filhos já adultos!
Mas são só crianças – Ela diz com uma luz que chega a ofuscar quem está perto
- Não, mãe...isso é cuidado, o mesmo que nunca nos abandonou, nunca me deixou
Amor que só cresce...amor de pai, amor de mãe...



sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Ser Solitário

A solidão não é o estado vazio
É cumplicidade com a sua existência
É fidelidade com o som do silêncio
É alicerçar a consciência de estar só

Ser artista é compartilhar a própria vivência com a solidão
Antes de ser poeta, há de ser solitário
É compreender, como músico, que antes do som há o nada
Que enraizar uma mentira é esconder fundo a legitimidade dentro do ator

O ser solitário é solitário
Quando enxerga a natureza das coisas
Além do quanto estão visíveis

Conhece bem a fatia do absurdo
Que se serve em cada má atitude e falta de amor
Mas deixa-as omissas diante da interpretação alheia

Ser solitário é reconhecer que algo só existe se recebe um nome
E se não tem alcunha, isso se recolhe na consciência de um ser solitário
Vagando por linguagens sentimentais em tomadas de inspiração

Ser solitário é ser inquieto
É estar perturbado por uma consciência 
Que vai além da própria
Que preocupa por estar ocupado com tantos ideais

Mas além de tudo...

Ser solitário é ser metafórico, sinestésico
É ser metonímico sem revogar a condição de ser para outro ser
É apenas respirar em sua própria condição
Sem pensar em querer ser...solitário.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Amor em película


O seu amor é como um rolo de filme
Uma trama, uma trilha, uma transa
Cor, tempo, espaço, preto e branco
Com sonoridade narrada por alguém
Que me faz ver o mundo por lentes cor de rosa


O seu amor não obedece ordem cronológica
Não estou disponível, mas estou presente
Há cortes, rupturas dentro da película, marcas
Que somente um filme bom poderia deixar


O meu amor é incompreensível, irracional, mas
É dialético, é envolvente, é terno e amável
É amor por um pseudônimo, por puro erotismo
Por alguém que me faz ver o mundo por lentes cor de rosa


O meu amor é inconsequente, cruel, mas
É doce, é quente e molhado, contornável
É amor que se desenha sem esboço e borracha
Por alguém que me faz ouvir o mundo como uma música de Bowie.


O nosso amor é sexo, sem drogas e rock n’roll
É bossa nova, é sambinha bom, é ilegal
É sonorizado por notas fáceis de uma cifra
Por algo que nos move além do que a moralidade permite.



sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Pétalas de jornal


E naquele pedaço de bolo eu cravei as suas iniciais com as minhas...

Um bolo de chocolate, com calda e pedaços médios de raspas por todos os lados, por toda a imensidão daquele pratinho de plástico. Prato descartável.

Miro as letras, e algo me diz que não devo comer. Era como se... se comesse, eu pudesse devorar o que ele foi para mim, e a minha lembrança se desfaria em meu suco gástrico.

E, naquele pedaço da casa, eu me sentia como um solitário e dissecado pedaço de bolo de aniversário, daqueles com brigadeiros em volta, porém partido e só, em meio a tanta beleza fugaz.

Quando M morreu, eu me senti assim. Não sabia ao certo qual era a importância dele em minha vida; sabia que ele existia. E sabia somente isso. E sabia que, quando vivo, ele não foi tão importante para mim naqueles dias. Há anos, com certeza.

Um suspiro a mais, e volto à geladeira para mirar o bolo. Eu não tinha coragem de devorar a parte das iniciais: a dele em cima e a minha logo abaixo.

Era bom me deitar naquele colchão inflável, daqueles que compramos em promoção no supermercado. Era macio e, a cada parte em que o meu corpo pesava contra ele, o outro lado se enchia. Assim como quando colocamos a cobertura no bolo de aniversário e ele fica tão cheio que derrama pelas laterais. É... Eu pensei em me deitar, mas voltei à porta da geladeira. Não a abri; encostei a minha cabeça no corrimão prateado. Suspiro. Suspiro novamente e, dessa vez, pronuncio um nome de anjo. Não consigo sequer abrir a geladeira de novo. Não está cheia, mas a importância que ela tinha naquele momento era a de que, como em um caixão gélido, guardava o pedaço de bolo com a letra do meu nome abaixo do M.

Por fim, não hesitei dessa vez. Talvez por saber que não havia qualquer outro indício de M naquela casa, nem em retratos, nem em folhetins fúnebres. Logo, o garfo perfurou a massa fofa por cima, separando as iniciais e derramando a calda negra sobre o prato branco. Aquele líquido invadia o local e roubava-lhe toda a candura, tomando tudo o que havia de puro na breve vida daquela peça descartável, assim como Paint It, Black invadiu a minha mente quando ouvi os Rolling Stones.

Quanto mais dilacerava o bolo, mais o branco se sujava. Quanto mais o arrastava junto ao talher, mais os seus fragmentos se separavam. E aquele ato contínuo girou em minha cabeça como se se tratasse de um homicídio. Um crime nada perfeito, pois havia vestígios por todos os lados. E foi com a culpa de uma criminosa que deixei cair o prato sobre a mesa, ao tentar esconder o rosto entre os meus dedos largos e disformes. Suspirei, recuando o meu corpo e enterrando os meus quadris para dentro da mesa, reduzindo a minha existência a uma pequeneza no meio daquela sala-cozinha. Imaginei como seria se eu fosse apenas uma formiga. E ri ao descobrir como as formigas eram felizes por essa pequeneza, pois eram mínimas a ponto de passar despercebidas caso cometessem um crime, como furtar algo, por exemplo. Mas logo cessei o meu riso. Afinal, elas eram vilãs, sim, pois furtam açúcar e certamente não titubeariam em consumir aquele bolo. Desisti de ser formiga.

Ergui o meu tronco na cadeira e mirei o nada até encontrar a página do jornal que falava a respeito dos preços das geladeiras. Não imaginava quem poderia comprar tantas geladeiras, sendo que, no fim, a sua única função é conservar alimentos. Ou lembranças, como geralmente faço. Se eu fosse um fabricante desses modelos, criaria um revolucionário sistema de conservação de imagens boas que vivemos, para poder contemplá-las ali, a olhos vistos, em um globo de gelo, com os momentos mais importantes da minha vida. Talvez não vendesse, já que lembranças boas servem para aquecer os sentimentos envolvidos. Porém, eu queria mesmo congelá-las em minha memória... em meu tempo.

E continuei afogada naquela imensidão rosa-goiaba da minha sala-cozinha. Os olhos passeavam novamente em devaneio, e logo caí em mim, pois me lembrei de que aquele era o jornal. É, esse mesmo: foi por ele que eu soube da morte de M. Foi um instrumento de valor único para mim há alguns minutos, para depois eu esquecer a sua importância. Senti-me alguém realmente ruim por não dar às coisas o merecimento que lhes cabia e, por isso, procurei, como geralmente fazem as pessoas arrependidas por amor, a nota oficial do falecimento dele. Porém, o meu desespero parecia consumir-se cada vez mais, pois, quanto mais eu procurava, mais difícil se tornava encontrá-la. Imaginei que, assim como os mortos, as notícias também desaparecem. Mas bem que essa podia demorar um pouco a sumir, droga!

— É... Está aqui!

Foi um alívio tão grande que quase agradeci a Deus por isso. Sorri, satisfeita por achá-la, mas, ao mesmo tempo, a notícia trazia um vazio, como se M pudesse desaparecer eternamente da minha geladeira. Então, olhei o bolo, e as iniciais permaneciam lá, mesmo que separadas. E fitei a notícia que outrora me fez sentir uma boba por encontrá-la. Tudo aquilo se despedaçava como pétalas de flores em um redemoinho de bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer. Mas não havia flores. Nem as do seu velório. Havia apenas um jornal e a imagem de que aquela notícia seria um verdadeiro bem-me-quer, mal-me-quer, que estaria julgando o que realmente sentia e senti por M. E as suas pétalas caíam como os farelos do bolo de festa sobre a mesa, regaladas de convidados pequeninos que sepultariam, por fim, as memórias impossíveis de serem guardadas em minha geladeira do tempo. Mas, se eu não pudesse congelá-las, ao menos comeria, e M estaria guardado a salvo em meu ser. O meu suco gástrico não o consumiria, afinal, se é meu líquido, eu governo e declaro que estaria permanentemente proibida a morte de M dentro de mim.

O garfo prateado fincou-se na inicial M, assim como a minha mão tratou de cobri-la, não mais com chocolate, mas com aquelas pétalas de jornal que relatavam a sua morte. E, por fim, abri a minha boca, não para sepultá-lo, mas para memorizá-lo eternamente, como se, na minha condição de vilã, eu pudesse conseguir uma espécie de salvação ao ter a ideia de que ele ficaria bem. Mastiguei uma, duas, sessenta vezes, até senti-lo úmido o bastante para engoli-lo, ao sabor de letras digitadas às pressas e ao gosto doce e amável de chocolate.




quinta-feira, 8 de julho de 2010

A Partida do Xadrez


A Partida do Xadrez

E foi buscando a música perfeita que me encontrei musicando algo sobre você. Há dias procurava esse chorinho em playlists diversas, e uma angústia me consumia. Acreditava que a música fosse o estratagema perfeito para poder escrever sobre essa verdade que sinto. Sim, é a mais pura verdade: olhava CDs e videoclipes inteiros, procurando o seu rosto. Mas só via uma Dama. E foi assim que tudo começou.

A Dama sempre foi a peça maior do xadrez. Não seria por menos que ela seria uma dama: uma mulher sagaz e forte, a mais inteligente do tabuleiro. Mas, mesmo sendo tão altiva, ela não é alheia ao contato com peões, cavalos e bispos. E até com as torres, tão limitadas em seus movimentos retos.

A Dama valsa com leveza sobre o tabuleiro, exibindo-se com audácia no campo adversário. Talvez as damas fossem muito mais estratégicas que os cavalheiros, pois agem com perícia para conseguir o que desejam. Quiçá essa nobre peça possa até mesmo ludibriar um enxadrista quanto à sua posição, ocultando possibilidades e fazendo-o acreditar que pode ser poderoso. Uma maneira clichê de dizer o quanto as mulheres são poderosas e o quanto podem representar um risco. Ou seriam apenas atrizes inocentes?

Em uma partida de maio, a mais demorada das batalhas foi travada. Talvez fosse somente um jogo psicológico de xadrez humano, mas aquela linguagem que fluía como música dos corpos de ambos dizia o contrário. Era uma canção que se iniciou lenta e foi ganhando proporções avassaladoras até que se encontraram frente a frente em um tabuleiro. Rainha e Torre. Ao redor, vários peões prestes a serem descartados em um lance. Ou seriam apenas espectadores que torciam pela vitória de uma das peças?

A audácia da Rainha poderia intimidar a Torre por sua ousadia. Não sentia medo; era absoluta em seu reino fantasioso e não temia ser ela mesma. Sequer temia o que o tabuleiro pensava a seu respeito. Triunfava com seu conhecimento e desafiava quem quer que fosse.

Mas a sabedoria da Dama foi anulada pela paciência da Torre.

Uma nota mais alta ressoou, interrompendo o ritmo da música. O rock da Dama foi substituído por violões em choro. E aquele Choro nº 1 foi invadindo os tímpanos da Rainha e atrapalhando seus movimentos. Mas, por mais que seus ataques fossem bloqueados, aqueles acordes dedilhados pela Torre a atraíam docilmente. Quem diria! Ela, a todo-poderosa, sendo contra-atacada da forma mais sutil e inteligente possível?! Era impossível acreditar!

A audaciosa Dama sentia medo. Mais parecia a personificação do Congresso Internacional do Medo, de Drummond. Mas não quereria flores amarelas e medrosas. Não. Ansiava pelo aroma dócil e abrasador do sândalo e do almíscar, com notas orientais. Aroma de um sentimento em linha reta. No entanto, as únicas notas que possuía eram as do violão dedilhado e distante da Torre. Se morresse, seria de angústia. Mas era tão grande a vontade de que aqueles dedos magros parassem de tocar o instrumento e a fizessem música que isso lhe causava um sofrimento ainda maior.

A corajosa Dama recuou diante desse sentimento. Corajosa porque outrora explicitara toda a sua audácia feminina em verbos no pretérito mais-que-perfeito. Antes tivesse se expressado em um tempo presente, insistente, mais que audaz, antes perfeito. Ou apenas calasse sua ousadia e ouvisse com atenção as cordas do Choro nº 1. Talvez essa última possibilidade lhe permitisse tapar sua caixa acústica psicológica ao som das masculinas cordas vocálicas e, aí sim, vencer o jogo. Mas seu recuo a levou para junto das outras peças mortas e negras, anteriormente capturadas. Ela se esquivou diante do que poderia ouvir. Precisava eliminar de uma vez por todas aquela agonia, nem que, para isso, se sacrificasse. Nem que, para isso, fugisse para ouvir um sim. Ou um outro som.


https://www.youtube.com/watch?v=IC0IluUpCjE&list=RDIC0IluUpCjE&start_radio=1