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quarta-feira, 4 de setembro de 2024

A amálgama das órbitas

E antes do início eles estavam lá, evitavam encontrar os meus, mas a minha sede de aprofundar no oceano breu e profundo das suas retinas era maior do que a sua reluta em entregar-se. Eu queria mais, mergulharia de ponta na primeira oportunidade, meu coração palpitava ao imaginar o encontro do meu par ansioso aos de suas órbitas reclusas. 

E foi assim. Não, não foi assim. Não houve mergulho de um para dentro de outro. Foi fusão.

O seu nome tem no meu, o meu nome tem no seu


O seu nome tem no meu
O meu nome tem no seu
3 letras em brincadeira
Combinam com riso
Aquilo o que o destino escolheu

O meu nome tem no seu
O seu nome tem no meu
3 letras girando em peão
Combinam a corte
O corte dourado do enlace do amor
Rainha e valete
União que floresceu

O meu nome tem no seu
E o seu nome tem no meu
3 letras em anagrama
Dançando em roda
Combinam intensamente
O amor que Deus nos deu

O seu nome tem no nosso
O nosso nome tem no meu e no seu
Ciranda lenta de roda
Encirandando nos cachos
Cheirando a rosa, a nuvem negra de rodas
Bru - Rub - Rub- Bru
De mãos dadas e
cantarolando versinhos desse chamego que é só meu

A princesa que eu sou...
Esbraveja, relampeja sensações em alta voltagem
Desagua, correndo ressentimentos em tromba d'água

A princesa que eu sou...
É sentimento e intelecto
É Oyá, é Oxum
Força da natureza, perspicácia, amor: é quantum

A princesa que eu sou?
A princesa que eu fui
Deixei no espelho aguado, nunca mais vi,
Dispersou-se na chuva de plasma
Recolheu-se no que eu volvi

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Sobre viver e etcétera

     Uma grossa camada de vidro temperado separava a plateia do desespero. Notava-se a respiração entrecortada entre o medo e o instinto. Era todo uma pelagem cinza amarronzada com uma cicatriz que adornava o seu dorso, tatuagem de bravura por conseguir escapar com vida de sei lá o que, mas naquela tarde cinza de dezembro, com muita chuva, não fosse mais possível continuar. 

    O olhar atento, mas indiferente ao vidro escuro também mantivera-se displicente à mim, mesmo entre bicudas provocadas propositalmente pelo Adidas rosa bebê almofadada em direção à barreira translúcida. Ele não olhara para mim.

    O pedaço do seu longo rabo - agora um toco - estava ao lado do meu tênis. Pavor e nojo contornavam a minha expressão facial. Contudo, senti ali, naquele metro quadrado, uma imensa tristeza, compadecia-me, queria poder dizer-lhe: Sai logo daí e fuja! Saia daí antes que te machuquem ainda mais! Saia daí e venha pra cá antes que te matem! 

    Tratava-se apenas de um rato, mas naqueles minutos pensei: O que difere seres humanos e seres ratos, já que todos lutamos pela sobrevivência, cada qual ao seu modo? E se em uma outra realidade domesticássemos esses ratos como se fossem gatos, cachorros, pássaros, hamsters...mas as reticências do meu pensamento calaram-me.

    Ao mesmo tempo, temia por ele me atacar caso eu abrisse a porta da guarita e, por isso, abri e fechei rapidamente a porta barulhenta de vidro temperado algumas vezes tomando as minhas notas mentais. Movia-se em sinal de desconforto e soube então que ele me sentia. Ali soube que os meus olhos enevoaram-se diante da minha própria incapacidade e covardia. 

    Não imaginava capaz de desafiar-me a tentar ajudá-lo, pois ali estava a possibilidade de querer atacar a mim, covardemente, seja por instinto, seja por sobrevivência ou apenas por enxergar ali um predador, por ver-me como ser humano que sou.

    No entanto, um senso surreal de compaixão e empatia tomou os meus olhos, a névoa desabou em cinza. Chovia naquela tarde, o céu estava cinza. O pelo cinza molhara-se com a cintilância das gotas. Meu choro queimava um rastro cinza homogêneo do antes delineado preto com o blush rosê. Sentíamos o mesmo gosto da dor e, então decidi acompanhar a sua solidão ali, dividida pela transparência do vidro temperado pela chuva.

E éramos nós três: O rato, a solidão e eu.

Por quem as panelas batem

 

Para quem as panelas batem?

Por que as panelas batem?

Para que as panelas batem?

Por quem as panelas batem?

Panelas vazias ecoam a hipocrisia

Panelas cheias propagam a fome

Cheias da rica idiossincrasia

Vazias pela pobreza insone

Para quem as panelas batem?

Por que as panelas batem?

Para que as panelas batem?

Por quem as panelas batem?

Batem, ecoam abundância de palavras

Batem, propagam insignificância de ideias

Cheias da rica moralidade infantil

Vazias do pobre! Mortalidade juvenil

Para quem as panelas batem?

Por que as panelas batem?

Para que as panelas batem?

Por quem as panelas batem?

Para quem as panelas batem?

Para aqueles que os sinos canarinho dobram

Badaladas da nova política de ferrugem

aMÉMzada da comunhão de broderagem

Som metralhado nos que os direita entortam

Por que as panelas batem?

Batem, porque estão cheias de ódio

Batem, pois não latem, mas

Aplaudem a ignorância no pódio

Para que as panelas batem?

Batem para abater

Batem para asfixiar

Batem para matar

Batem para tolher

Por quem as panelas batem?

Batem pela pátria

Batem pelo horror

Batem pela bala

Batem pelo louvor

Batem, batem, batem...

Batem, latem, batem...

Batem, orem, batem...

Batem, ordem!: -Matem!

 

Por Bruna Argôlo

domingo, 24 de outubro de 2021

 A partida da minha mãe deixou-me um gosto de manga caída do pé. Essa manga, mesmo madura e doce, era amassada na parte escondida na terra. Não foram todos os anos de boa relação. Foram lindas as lembranças de quando criança, chamava-me de Pedra 90 da casa. A vida adulta trouxe severidade entre as ideias, conflitos que o tempo fez em farrapos amarelos temperados de doce. Mas manga é a minha fruta favorita, era uma das suas também. Eu brindo essa lembrança com o sabor remoso-alegre da manga e do gosto saudoso do pé de manga que havia em sua casa há alguns anos.

De João Cabral de Melo Neto para a minha mãe

A covid comeu seu nome, seu CPF, seu semblante. A covid comeu sua certidão de nascimento, de casamento, sua ascendência, o seu corpo material. A covid veio e comeu todos os cartões com o seu nome.


Faminta, a covid devorou a sua vaidade, o seu rancor, a sua gana de viver. Faminta ainda, a covid devorou as suas unhas esmaltadas, o seu nariz afilado, a sua risada generosa que mais parecia uma gaitada.

A covid comeu sua paz e sua guerra. Seu dia que era noite. A covid comeu o seu acalento com o meu pai. A covid comeu o seu cuidado amoroso. A covid comeu a sua diabete, a sua osteoporose, a sua dor.

A covid devorou quase tudo. Comeu suas palavras, o seu sanguíneo temperamento e o seu medo da morte. A covid não conseguiu comer tudo o que queria: Não comeu a sua vida, não comeu o seu amor. Afinal, a covid, mesmo faminta, não conseguiu comer todo bem espe(a)lhado por você! A covid não te devorou
O amor dentro de nós devorou todo o furor da covid dentro do seu ser.