A princesa que eu sou...
Esbraveja, relampeja sensações em alta voltagem
Desagua, correndo ressentimentos em tromba d'água
Olá, meu nome é Bruna, sou professora e amante de Arte, essa com letra maiúscula e bonita de se admirar com todas as suas linguagens.
quarta-feira, 4 de setembro de 2024
segunda-feira, 4 de dezembro de 2023
Sobre viver e etcétera
Uma grossa camada de vidro temperado separava a plateia do desespero. Notava-se a respiração entrecortada entre o medo e o instinto. Era todo uma pelagem cinza amarronzada com uma cicatriz que adornava o seu dorso, tatuagem de bravura por conseguir escapar com vida de sei lá o que, mas naquela tarde cinza de dezembro, com muita chuva, não fosse mais possível continuar.
O olhar atento, mas indiferente ao vidro escuro também mantivera-se displicente à mim, mesmo entre bicudas provocadas propositalmente pelo Adidas rosa bebê almofadada em direção à barreira translúcida. Ele não olhara para mim.
O pedaço do seu longo rabo - agora um toco - estava ao lado do meu tênis. Pavor e nojo contornavam a minha expressão facial. Contudo, senti ali, naquele metro quadrado, uma imensa tristeza, compadecia-me, queria poder dizer-lhe: Sai logo daí e fuja! Saia daí antes que te machuquem ainda mais! Saia daí e venha pra cá antes que te matem!
Tratava-se apenas de um rato, mas naqueles minutos pensei: O que difere seres humanos e seres ratos, já que todos lutamos pela sobrevivência, cada qual ao seu modo? E se em uma outra realidade domesticássemos esses ratos como se fossem gatos, cachorros, pássaros, hamsters...mas as reticências do meu pensamento calaram-me.
Ao mesmo tempo, temia por ele me atacar caso eu abrisse a porta da guarita e, por isso, abri e fechei rapidamente a porta barulhenta de vidro temperado algumas vezes tomando as minhas notas mentais. Movia-se em sinal de desconforto e soube então que ele me sentia. Ali soube que os meus olhos enevoaram-se diante da minha própria incapacidade e covardia.
Não imaginava capaz de desafiar-me a tentar ajudá-lo, pois ali estava a possibilidade de querer atacar a mim, covardemente, seja por instinto, seja por sobrevivência ou apenas por enxergar ali um predador, por ver-me como ser humano que sou.
No entanto, um senso surreal de compaixão e empatia tomou os meus olhos, a névoa desabou em cinza. Chovia naquela tarde, o céu estava cinza. O pelo cinza molhara-se com a cintilância das gotas. Meu choro queimava um rastro cinza homogêneo do antes delineado preto com o blush rosê. Sentíamos o mesmo gosto da dor e, então decidi acompanhar a sua solidão ali, dividida pela transparência do vidro temperado pela chuva.
E éramos nós três: O rato, a solidão e eu.
Por quem as panelas batem
Para quem as panelas batem?
Por que as panelas batem?
Para que as panelas batem?
Por quem as panelas batem?
Panelas vazias ecoam a hipocrisia
Panelas cheias propagam a fome
Cheias da rica idiossincrasia
Vazias pela pobreza insone
Para quem as panelas batem?
Por que as panelas batem?
Para que as panelas batem?
Por quem as panelas batem?
Batem, ecoam abundância de palavras
Batem, propagam insignificância de ideias
Cheias da rica moralidade infantil
Vazias do pobre! Mortalidade juvenil
Para quem as panelas batem?
Por que as panelas batem?
Para que as panelas batem?
Por quem as panelas batem?
Para quem as panelas batem?
Para aqueles que os sinos canarinho dobram
Badaladas da nova política de ferrugem
aMÉMzada da comunhão de broderagem
Som metralhado nos que os direita entortam
Por que as panelas batem?
Batem, porque estão cheias de ódio
Batem, pois não latem, mas
Aplaudem a ignorância no pódio
Para que as panelas batem?
Batem para abater
Batem para asfixiar
Batem para matar
Batem para tolher
Por quem as panelas batem?
Batem pela pátria
Batem pelo horror
Batem pela bala
Batem pelo louvor
Batem, batem, batem...
Batem, latem, batem...
Batem, orem, batem...
Batem, ordem!: -Matem!
Por Bruna Argôlo
domingo, 24 de outubro de 2021
A partida da minha mãe deixou-me um gosto de manga caída do pé. Essa manga, mesmo madura e doce, era amassada na parte escondida na terra. Não foram todos os anos de boa relação. Foram lindas as lembranças de quando criança, chamava-me de Pedra 90 da casa. A vida adulta trouxe severidade entre as ideias, conflitos que o tempo fez em farrapos amarelos temperados de doce. Mas manga é a minha fruta favorita, era uma das suas também. Eu brindo essa lembrança com o sabor remoso-alegre da manga e do gosto saudoso do pé de manga que havia em sua casa há alguns anos.
De João Cabral de Melo Neto para a minha mãe
A covid comeu seu nome, seu CPF, seu semblante. A covid comeu sua certidão de nascimento, de casamento, sua ascendência, o seu corpo material. A covid veio e comeu todos os cartões com o seu nome.
Faminta, a covid devorou a sua vaidade, o seu rancor, a sua gana de viver. Faminta ainda, a covid devorou as suas unhas esmaltadas, o seu nariz afilado, a sua risada generosa que mais parecia uma gaitada.
A covid comeu sua paz e sua guerra. Seu dia que era noite. A covid comeu o seu acalento com o meu pai. A covid comeu o seu cuidado amoroso. A covid comeu a sua diabete, a sua osteoporose, a sua dor.
A covid devorou quase tudo. Comeu suas palavras, o seu sanguíneo temperamento e o seu medo da morte. A covid não conseguiu comer tudo o que queria: Não comeu a sua vida, não comeu o seu amor. Afinal, a covid, mesmo faminta, não conseguiu comer todo bem espe(a)lhado por você! A covid não te devorou
O amor dentro de nós devorou todo o furor da covid dentro do seu ser.
quarta-feira, 18 de agosto de 2021
Manifesto Ipê Cor de
Pequi
Tatuado na abóbada empoeirada
Destaque entre os matizes de azul
Reina o Ipê Cor de Pequi
Na celebração do anavalhado concreto armado
Resiliente ante à secura nauseante
E ferozmente delicado na paisagem laranja
Protesta o Ipê Cor de Pequi
Na musicidade anárquica dos grilos do centro oeste
Resplandecente pelas copas abarrocadas
E sabor acre para os empreendimentos pálidos
Atesta o Ipê Cor de Pequi
A arabesca modernidade da natureza candanga
Desnorteada entre tesouras cegas
Amado pela sua neoclássica lourice
Inspira o Ipê Cor de Pequi
A dançante anacronia do espaço-sideral
Carimbado em cada curva burocrática
E registrada na vida e morte primaveril
Encerra o Ipê Cor de Pequi
A stravinskiana passagem para a Chuva Cor de Grená

