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terça-feira, 30 de junho de 2020

Havia pouco espaço em um copo de água Que transbordava a essência tempestuosa do meu ser Não peço licença, sou a fúria inconsequente da correnteza Arrastando a casa e as copas musicais do seu ser Inundando de escarlate essas artérias envidraçadas Pessimistas de sua teimosia
Esse é o encontro da água com a terra, um caótico envolvimento

Obra: Gustav Klimt

segunda-feira, 15 de junho de 2020

É na efemeridade dos momentos
Que eternizo as mais belas lembranças
Se tu tiveres a boca cheia de beijos, não digas nada: Eternize-me!

Obra de SeniorCoconut

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Meu corpo

Meu corpo foi espelho para ser mal interpretado
Meu corpo carregou hachuras de preconceito
Meu corpo foi o peso do martelar de julgamentos

Mas apesar de tudo, hoje...

Meu corpo não é apenas um corpo
Meu corpo é o borboletar da minha imaginação
Meu corpo é sentimento, a tela das cores da minha personalidade
Pois hoje, meu corpo é a pá que enterrou ressentimentos


sábado, 1 de fevereiro de 2020

Meu luto


O meu luto era um céu ensolarado visto por uma janela azul que quase nunca se abria
O meu luto era um gato preto engraçado brincando com outro gato branco manhoso
O meu luto tinha gosto de amêndoas do croissant rindo da fidalguia que não existia
O meu luto tinha também o gosto quadriculado do bolo xadrez e da fofura do Lollo
O meu luto tinha cheiro da maresia do meio da noite da orla de Olinda


O meu luto tinha jeito de menino com uns olhos de brilho amavelmente castanhos
O meu luto tinha os cabelos caoticamente encaracolados e uma barba sempre por fazer
O meu luto tinha a preguiça de acordar cedo para aproveitar o café da manhã
O meu luto era alegre e ria com um gosto que me fazia rir junto
O meu luto foi companheiro, foi piadista, mas também o melhor dos amantes


O meu luto me acalentava parcimoniamente, mas também lambia os seios com paixão
O meu luto me enveuzava com beijos, com cheiros, com cosquinhas, uma delícia
O meu luto me metia e quase não se segurava, me fazia as pernas desequilibrarem
O meu luto gostava de me ver nua e eu notava pelas sinuosidade, sempre ascendente
O meu luto nasceu sob o céu em escorpião, eu idem: feitos no signo da luta, cada um ao seu modo.


Mas sobretudo:
O meu luto me amou e eu amo o seu cheiro de sol, as ondas da sua morenice
O meu luto sofreu pelos milhas de distância, mas ainda me amou
O meu luto, eu o amo pelo jeito maroto de criança, amo o amigo, o filho, o pai e o amante
O meu luto é um carnaval antigo, sou a única passista do baile, a única participante
Desse luto que aguarda o fim da tristeza na próxima quarta-feira de cinzas

sábado, 4 de janeiro de 2020

Se eu fosse um bicho...

Se eu fosse um bicho,
A hibridez de espécie me caracterizaria
Uma puma celestial,
Uma ave de rapina com pernas
Para correr pelas veredas de asfalto e sobrevoar pelos seus sonhos mais altos




domingo, 29 de dezembro de 2019

QNE 18 casa 18 (Crônica)


                A casa da minha infância tinha cheiro. Tinha, porque o cheiro pertencia a casa. De manhã cedo, cheiro de pinha, lá havia uma ateira bem alta que soltava folhas grandes e perfumadas. Debaixo desse pé de pinha – o meu balanço de ferro, um acalento para as palmadas que eu levava pelas mal criações cometidas no  ônibus escolar. As cordas do balanço me impulsionavam automaticamente para o mundo dos meus sonhos verde-folha, meu analgésico para a tristeza. Eu imaginava a minha independência aos 18 anos, não apanharia mais.

                Durante o almoço  o cheiro se modificava. A casa tinha um cheiro agridoce-remoso que fazia a minha barriga reclamar de fome. O odor característico de Taguatinga dos anos 80 – perfume de pequi. Eu já poderia imaginar as possibilidades do almoço – galinhada com pequi, frango ao molho com quiabo e pequi ou apenas o pequi no arroz acompanhado de feijão, abóbora e costelinha de porco frita – o meu favorito. À mesa posta, almoçávamos contentes. O pequi para mim funcionava como um lullaby repentista para a minha soneca da tarde. Sonhava em ter 18 anos dançando valsa em um vestido dourado acompanhada do Super Mouse, meu crush na época.

                As primeiras cores da noite naquela casa tinham cheiro de suor. A QNE 18 toda me reconhecia com a minha Caloi de cestinha adornadas com um buquê de rosas falsas e folhas da ateira durante os passeios até o poente. As noites eram especiais, dava voltas me exibindo para o pé de pinha, uma dança que fazia suar a cada arrancada com a bicicleta. A mente voava alto com os devaneios azul celeste do terno do meu namorado imaginário, tão elegante e alto. Eu já tinha 18 anos, poderia abraçá-lo e dançar à vontade. O meu sonho só era interrompido pelo som das palavras de Cleuza que me chamava para tomar banho e jantar. Eu ouvia a janta de longe, era o som da panela de pressão que me fazia apressar correndo para dentro da casa toda suada.





quinta-feira, 16 de maio de 2019

Soul EducaDOR


Nos meus braços levo palavras, 
Conhecimento cru lapidado da dor
Fui batizada na batalha com as palavras,
Nomeada cavaleira errante entre classes

Recebi esta minha armadura quixotesca
Erguendo em punho um pincel com palavras
Entoando um hino de amor à sabedoria
Não fujo à luta, fui forjada no calor do embate

A guerra não é contra as almas que acalento
Luto contra os gigantes que açoitam minhas crianças de
Maioria negra, tratadas como minoria inferior.
Elas olham através de mim e eu empunho a voz
Entoando um brado de valentia e esperança


Os gigantes de olhos ocos hão de cair frente à onda de cavaleiros,
Blindados com o véu da honestidade das almas confiadas a nós
Assim o rio com a fórmula da água se transformará em
Mar revolto de multidão, guerreiros urrarão um ataque torrencial
Colocaremos os vilões em seus devidos lugares:
Moinhos de vento diante do Tsunami da Educação


Arte: @xjoaoastroboyx