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quarta-feira, 22 de março de 2017

Classe média em março de 2017

–  E o jogo do Flamengo?

No jornal – notícias sobre a aposentadoria 
–  Vamos morrer sem se aposentar dignamente!
– E esses grevistas atrapalhando tudo?
No jornal  – aumento do preço da energia

–  Você viu o jogo do Flamengo?

Na padaria – falatório da carne estragada
–  Vamos morrer sem comer dignamente!
–  E esse bando de professor de greve atrapalhando tudo?
Na padaria – café e presunto na chapa

–  Rapaz, e o Mengão?

Na internet – mulheres, felicidades pelo seu dia!
–  Andava igual uma puta, sem dignidade alguma!
– E esses vagabundos grevistas atrapalhando tudo?
Em casa – beija a testa da mãe e sorria

–  Dá-lhe Mengão!

 No jornal – notícias sobre o racionamento de água.
 Na padaria – falatório discriminando a travesti assassinada
 Na internet – Bolsonaro 2018, é melhor JAIR se acostumando
- Não importa! Domingo tem o jogo do Mengo, mas feliz dia das mulheres!


segunda-feira, 20 de março de 2017

A pomba, a mãe

Não tinha prole, o marido faleceu
Recebeu bens de herança e uma pomba
Aleijada para criar como sua filha

Ninguém entendia o zelo, aquele amor
Foi então que um dia:
- Esse foi o maior elo que me deixou

Eram mimos, entusiasmos, alegrias
A voz sempre emocionada
- É a minha pombinha, é a minha mocinha!

Ninguém entendia a dor, aquele sofrimento
E foi nesse dia:
- Deu cria a um ovo quebrado, morreu

Era de todo pesar, tristeza e incompreensão
A voz que sempre sorria:
- Enterrei ontem o último suspirar, a minha paixão
Enquanto as lágrimas escorriam


As cascas de sentimentos craquelados
Foi assim que a pomba mostrou o amor
Empatia pelo sentimento da mãe, o elo
De um dia perder o que se cria


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Meu Carnaval Diário

Minhas atitudes imitam a fidalguia
Mas em meu íntimo não há nada de nobreza
Meus sentimentos viajam pela singeleza rupestre, semi-árida de seu solo sensível
Mas gentil de ser você

Mergulho nas notas de um frevo 
Meu coração vibra em um tom de Ré-menor
Mi, Fá Sustenido...
Mas é no Sol que ele se sustenta, é no seu carinho que
Meus braços aquecem-se e não há nada de sofisticado nisso

Mas é nessa simplicidade que esse
Meu coração festeja, E é
Mesmo só amor: amor simples e pueril. Amor em Sol. E só.
Meu cheiro de sol. Meu Moa. 


sábado, 31 de maio de 2014

Entradas, saídas e bandeiras

Mãe diz: Filho, tá na mesa, ‘mede’ a minha glicose
O pai que é o filho amorosamente obedece
- Vem preta, segura a minha mão! – e não só a mão ele segura
Ele carrega, embala e cuida de um coração, pequeno, parece frágil
 Mas aguenta toneladas de mágoas – saídas de filhos que vão e voltam

A Bandeira dos pais é amor, feita de um tecido alvo, cor tranquila
Mas que serve como toalha para enxugar angústias que escorrem
Com gosto amargo e dolorido, talvez outrora fosse feito
De lâminas que machucam e tingem de vermelho pela intensidade
Que é o seu amor: corta, mas protege.

- Preta, já tomou o seu remédio? – preocupadamente o filho-pai pergunta
E assiste ao futebol, com a agonia quando o Vasco perde ou empata
- Que merda, esse time não tá jogando nada!-  Mas volta-se para a esposa
Com a candura e o apego de um jovem casal, namoram, mas discutem
Mesmo de leve quando o volume do televisor excede
 – Abaixa isso aí que eu to no telefone!

- Ô Bem, to preocupada com o horário, André já chegou? – E mais uma noite
Ela se prepara para dormir tarde. Quanta preocupação com os filhos já adultos!
Mas são só crianças – Ela diz com uma luz que chega a ofuscar quem está perto
- Não, mãe...isso é cuidado, o mesmo que nunca nos abandonou, nunca me deixou
Amor que só cresce...amor de pai, amor de mãe...



sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Ser Solitário

A solidão não é o estado vazio
É cumplicidade com a sua existência
É fidelidade com o som do silêncio
É alicerçar a consciência de estar só

Ser artista é compartilhar a própria vivência com a solidão
Antes de ser poeta, há de ser solitário
É compreender, como músico, que antes do som há o nada
Que enraizar uma mentira é esconder fundo a legitimidade dentro do ator

O ser solitário é solitário
Quando enxerga a natureza das coisas
Além do quanto estão visíveis

Conhece bem a fatia do absurdo
Que se serve em cada má atitude e falta de amor
Mas deixa-as omissas diante da interpretação alheia

Ser solitário é reconhecer que algo só existe se recebe um nome
E se não tem alcunha, isso se recolhe na consciência de um ser solitário
Vagando por linguagens sentimentais em tomadas de inspiração

Ser solitário é ser inquieto
É estar perturbado por uma consciência 
Que vai além da própria
Que preocupa por estar ocupado com tantos ideais

Mas além de tudo...

Ser solitário é ser metafórico, sinestésico
É ser metonímico sem revogar a condição de ser para outro ser
É apenas respirar em sua própria condição
Sem pensar em querer ser...solitário.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Amor em película


O seu amor é como um rolo de filme
Uma trama, uma trilha, uma transa
Cor, tempo, espaço, preto e branco
Com sonoridade narrada por alguém
Que me faz ver o mundo por lentes cor de rosa


O seu amor não obedece ordem cronológica
Não estou disponível, mas estou presente
Há cortes, rupturas dentro da película, marcas
Que somente um filme bom poderia deixar


O meu amor é incompreensível, irracional, mas
É dialético, é envolvente, é terno e amável
É amor por um pseudônimo, por puro erotismo
Por alguém que me faz ver o mundo por lentes cor de rosa


O meu amor é inconsequente, cruel, mas
É doce, é quente e molhado, contornável
É amor que se desenha sem esboço e borracha
Por alguém que me faz ouvir o mundo como uma música de Bowie.


O nosso amor é sexo, sem drogas e rock n’roll
É bossa nova, é sambinha bom, é ilegal
É sonorizado por notas fáceis de uma cifra
Por algo que nos move além do que a moralidade permite.



sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Pétalas de jornal


E naquele pedaço de bolo eu cravei as suas iniciais com as minhas.... 


Um bolo de chocolate, com calda e pedaços médios de raspas por todos os lados, por toda a imensidão daquele pratinho de plástico. Prato descartável. 


Miro as letras e algo me diz que não devo comer. Era como se... se comesse, eu pudesse devorar o que ele foi pra mim e a minha lembrança se desfaria em meu suco gástrico. 

E naquele pedaço da casa eu me sentia como um solitário e dissecado pedaço de bolo de aniversário, daqueles com brigadeiros em volta, porém, partido e só em meio a tanta beleza fugaz. 

Quando M morreu eu me senti assim. Não sabia ao certo qual era a importância dele em minha vida, sabia que ele existia. E sabia somente isso. E sabia que, quando vivo, ele não foi tão importante pra mim naqueles dias. Há anos atrás, com certeza. 


Um suspiro a mais e volto à geladeira para mirar o bolo. Eu não tinha coragem de devorar a parte das iniciais, a dele em cima e a minha logo abaixo. 


Era bom me deitar naquele colchão inflável daqueles que compramos em promoção no supermercado. Era macio e a cada parte que o meu corpo pesava contra ele, enchia o outro lado. Assim como quando colocamos a cobertura do bolo de aniversário e ele fica tão cheio que derrama pelas laterais.  É...eu pensei em me deitar, mas volto à porta da geladeira, não a abro, encosto a minha cabeça no corrimão prateado. Suspiro. Suspiro novamente e dessa vez pronuncio um nome de anjo. Não consigo sequer abrir a geladeira de novo, não está cheia, mas a importância que ela tinha naquele momento é que, como em um caixão gélido, ela guardava o pedaço de bolo com a letra do meu nome abaixo do M. 

Por fim não hesitei dessa vez. Talvez por saber que não havia qualquer outro indício de M naquela casa, nem em retratos ou folhetim fúnebre. Logo o garfo perfurou a massa fofa por cima separando as iniciais e derramando a calda negra sobre o prato branco. Aquele líquido invadia o local e roubava-lhe toda a candura, tomando tudo o que havia de puro na breve vida daquela peça descartável, assim como Paint it Black invadiu a minha mente quando ouvi Rolling Stones. 


Quanto mais dilacerava o bolo, mais o branco se sujava. Quanto mais o arrastava junto ao talher, mais os seus fragmentos se separavam. E aquele ato contínuo girou em minha cabeça como se tratasse de um homicídio. Um crime nada perfeito, pois havia vestígios por todos os lados. E foi com a culpa de uma criminosa que deixei cair o prato sobre a mesa ao tentar esconder o rosto entre os meus dedos largos e disformes.  Suspirei quedando o meu corpo para trás e enterrando os meus quadris para dentro da mesa, reduzindo a minha existência à uma pequenice no meio daquela sala-cozinha. Imaginei como seria se fosse apenas uma formiga. E ri ao descobrir como as formigas eram felizes por essa pequenice, pois era mínima a ponto de passar despercebida caso cometesse um crime, por exemplo, de furtar algo. Mas logo cessei o meu riso, afinal elas eram vilãs sim, pois furtam açúcar e certamente não titubeariam em consumir aquele bolo. Desisti de ser formiga.

 
Ergui o meu tronco na cadeira e mirei o nada até encontrar a página de jornal que falava a respeito de preços de geladeira. Não imaginava quem poderia comprar tantas geladeiras, sendo que no final a sua única função é conservar alimentos. Ou lembranças como geralmente faço. Se eu fosse um fabricante desses modelos criaria um revolucionário sistema de conservação de imagens boas que vivemos para poder contemplar ali, a olhos vistos, em um globo de gelo, os momentos mais importantes da minha vida. Talvez não vendesse, já que lembranças boas servem para aquecer os sentimentos envolvidos, porém eu queria mesmo congelá-las em minha memória... em meu tempo. 


E continuei afogada naquela imensidão rosa - goiaba da minha sala-cozinha. Os olhos passeavam novamente em devaneio e logo caí em mim, pois lembrei que aquele era o jornal. É, esse mesmo, foi por ele que eu soube da morte de M. Foi um instrumento de valor único para mim à minutos atrás para depois esquecer de sua importância. Me senti alguém realmente ruim por não dar o real merecimento às coisas e, por isso, procurei, como geralmente fazem as pessoas arrependidas por amor, da nota oficial do falecimento dele. Porém o meu desespero parecia se consumir cada vez mais, pois quanto mais eu procurava, mais difícil se tornava encontrá-lo. Imaginei que, assim como os mortos, as notícias também desaparecem. Mas bem que essa podia demorar um pouco a sumir, droga! 


- É...está aqui! 


Foi um alívio tão grande que quase agradeci a Deus por isso. Sorri satisfeita por achá-lo, mas ao mesmo tempo a notícia trazia um vazio como se M pudesse desaparecer eternamente da minha geladeira. Então olhei o bolo e as iniciais permaneciam lá, mesmo que separadas. E fitei a notícia que outrora me fez sentir uma boba por encontrá-la. Tudo aquilo despedaçava como pétalas de flores em um redemoinho de bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer. Mas não havia flores. Nem as do seu velório. Havia apenas um jornal e a imagem de que aquela notícia seria um verdadeiro bem-me-quer, mal-me-quer, que estaria julgando o que realmente sentia e senti por M. E as suas pétalas caiam como os farelos do bolo de festa sobre a mesa, regaladas de convidados pequeninos que sepultariam, por fim, as memórias impossíveis de serem guardadas em minha geladeira do tempo. Mas se eu não pudesse congelá-las ao menos comeria e M estaria guardado a salvo em meu ser. O meu suco gástrico não o consumiria afinal se é meu líquido, eu governo e declaro que estaria permanentemente proibida a morte de M dentro de mim. 

O garfo prateado fincou na inicial M assim como a minha mão tratou de cobri-lo, não mais com chocolate, mas com aquelas pétalas de jornal que relatavam a sua morte. E por fim abri a minha boca, não para a sepultá-lo, mas para memorizá-lo eternamente como se na minha condição de vilã eu pudesse conseguir uma espécie de salvação ao ter a ideia de que ele ficaria bem. Mastiguei uma, duas, sessenta vezes até senti-lo úmido o bastante para engoli-lo ao sabor de letras digitadas às pressas e ao gosto doce e amável de chocolate.