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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Dengo

Meus dedos brincam

Na nuvem de fios

Negros e perdem-se

No embaraçar emaranhado de chá-

Mego, é acalento para as 

Minhas asas feridas, é re-

Médio para essa alma cheia de tor-

Mentos

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Horizonte inebriante

O horizonte que eu desejo ver
É cheio de calor, transbordando de paixão
Num mar revolto de fios vermelhos e o quase grisalho dos seus cabelos

O horizonte que eu desejo ter
É um horizonte onde mergulho em magma puro
Nado borboleta de fluídos:
Encontro do seu V labial
EnluVamento no meu arco do cvpido
Aeróbica suaVe, rito sem prece, instrumentada por duas hidras inefáVeis
Nadando no saliVante mar de luxvria

Por Bruna Argolo


quarta-feira, 4 de setembro de 2024

A despedida do café da manhã

Enquanto preparava o café da manhã em casa, meu marido saia do banho cantarolando algo musicalmente indeterminado para mim, até que em certo momento aquele cheiro invadiu as minhas narinas.

Foi no exato momento em que punha a garrafa de café sobre a mesa que o almíscar e outras essências tomaram aquele momento da minha manhã. Uma experiência sensorial incomum, já que não me surpreendia facilmente com cheiros, só sei que um calor invadiu o meu peito e a minha garganta adotou a textura de nó enlaçado. Fiquei parada em frente à mesa, tentando processar todas aquelas sensações. Era tudo muito estranho.

- Vida, você já fez o café? Preciso ir para o ensaio da banda, tô atrasado.

A frase me sobressaltou e recobrei a consciência do que estava fazendo, havia esquecido de pegar as canecas de café no armário, mas adiantei-me para realizar esse afazer.

Clincg Cloncg _ Era o tilintar do encontro das louças agarrados pelas alças.
Clâncg _Era o tilintar do encontro das louças sobre a mesa.

“Que esquisito, esses sons tão comuns hoje me parecem tão diferentes...”
E as reticências ecoavam estridentemente na minha cabeça, ainda mais quando fui até a porta da geladeira aberta para pegar o leite e ouvi uma música antiga vinda do apartamento vizinho:
“Todo dia é o mesmo dia, toda hora é qualquer hora...”

A música da cantora Diana, o tilintar das canecas, o cheiro do Axe, tudo isso era coordenado pelo eco das reticências. Fui surpreendida pelo abraço do meu companheiro, o afago das suas mãos sob as minhas costas, o cabelo molhado respingando sob meu rosto que se confundiam com as minhas lágrimas conscientes e então entendi: Aquelas reticências tinham forma de nostalgia. Sorri com tudo isso e após um beijo em seus lábios, ressignifiquei toda aquela experiência sensorial.

- Amor, hoje eu me lembrei de quando eu era pequena e meu pai se despedia de mim logo pela manhã após o café para sair para trabalhar na Brahma. Ele era caminhoneiro e passava quase uma semana fora de casa.

Eu gosto de mim


 Eu gosto de mim, sabia?
Me aceitar é uma revolução
Em um mundo que te cobra sempre a perfeição
Sigo de cabeça erguida noite e dia, dia e noite
Transitando em um mundo que me cobra a perfeição
De falatórios inquisidores, de dedos ristes julgadores
Serei a minha melhor advogada 

Eu gosto de mim, sabia?
Me aceitar foi uma revolução
Por ter escolhido ser assim e
Por  gostar de andar na contramão

A amálgama das órbitas

E antes do início eles estavam lá, evitavam encontrar os meus, mas a minha sede de aprofundar no oceano breu e profundo das suas retinas era maior do que a sua reluta em entregar-se. Eu queria mais, mergulharia de ponta na primeira oportunidade, meu coração palpitava ao imaginar o encontro do meu par ansioso aos de suas órbitas reclusas. 

E foi assim. Não, não foi assim. Não houve mergulho de um para dentro de outro. Foi fusão.

O seu nome tem no meu, o meu nome tem no seu


O seu nome tem no meu
O meu nome tem no seu
3 letras em brincadeira
Combinam com riso
Aquilo o que o destino escolheu

O meu nome tem no seu
O seu nome tem no meu
3 letras girando em peão
Combinam a corte
O corte dourado do enlace do amor
Rainha e valete
União que floresceu

O meu nome tem no seu
E o seu nome tem no meu
3 letras em anagrama
Dançando em roda
Combinam intensamente
O amor que Deus nos deu

O seu nome tem no nosso
O nosso nome tem no meu e no seu
Ciranda lenta de roda
Encirandando nos cachos
Cheirando a rosa, a nuvem negra de rodas
Bru - Rub - Rub- Bru
De mãos dadas e
cantarolando versinhos desse chamego que é só meu

A princesa que eu sou...
Esbraveja, relampeja sensações em alta voltagem
Desagua, correndo ressentimentos em tromba d'água

A princesa que eu sou...
É sentimento e intelecto
É Oyá, é Oxum
Força da natureza, perspicácia, amor: é quantum

A princesa que eu sou?
A princesa que eu fui
Deixei no espelho aguado, nunca mais vi,
Dispersou-se na chuva de plasma
Recolheu-se no que eu volvi

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Sobre viver e etcétera

     Uma grossa camada de vidro temperado separava a plateia do desespero. Notava-se a respiração entrecortada entre o medo e o instinto. Era todo uma pelagem cinza amarronzada com uma cicatriz que adornava o seu dorso, tatuagem de bravura por conseguir escapar com vida de sei lá o que, mas naquela tarde cinza de dezembro, com muita chuva, não fosse mais possível continuar. 

    O olhar atento, mas indiferente ao vidro escuro também mantivera-se displicente à mim, mesmo entre bicudas provocadas propositalmente pelo Adidas rosa bebê almofadada em direção à barreira translúcida. Ele não olhara para mim.

    O pedaço do seu longo rabo - agora um toco - estava ao lado do meu tênis. Pavor e nojo contornavam a minha expressão facial. Contudo, senti ali, naquele metro quadrado, uma imensa tristeza, compadecia-me, queria poder dizer-lhe: Sai logo daí e fuja! Saia daí antes que te machuquem ainda mais! Saia daí e venha pra cá antes que te matem! 

    Tratava-se apenas de um rato, mas naqueles minutos pensei: O que difere seres humanos e seres ratos, já que todos lutamos pela sobrevivência, cada qual ao seu modo? E se em uma outra realidade domesticássemos esses ratos como se fossem gatos, cachorros, pássaros, hamsters...mas as reticências do meu pensamento calaram-me.

    Ao mesmo tempo, temia por ele me atacar caso eu abrisse a porta da guarita e, por isso, abri e fechei rapidamente a porta barulhenta de vidro temperado algumas vezes tomando as minhas notas mentais. Movia-se em sinal de desconforto e soube então que ele me sentia. Ali soube que os meus olhos enevoaram-se diante da minha própria incapacidade e covardia. 

    Não imaginava capaz de desafiar-me a tentar ajudá-lo, pois ali estava a possibilidade de querer atacar a mim, covardemente, seja por instinto, seja por sobrevivência ou apenas por enxergar ali um predador, por ver-me como ser humano que sou.

    No entanto, um senso surreal de compaixão e empatia tomou os meus olhos, a névoa desabou em cinza. Chovia naquela tarde, o céu estava cinza. O pelo cinza molhara-se com a cintilância das gotas. Meu choro queimava um rastro cinza homogêneo do antes delineado preto com o blush rosê. Sentíamos o mesmo gosto da dor e, então decidi acompanhar a sua solidão ali, dividida pela transparência do vidro temperado pela chuva.

E éramos nós três: O rato, a solidão e eu.

Por quem as panelas batem

 

Para quem as panelas batem?

Por que as panelas batem?

Para que as panelas batem?

Por quem as panelas batem?

Panelas vazias ecoam a hipocrisia

Panelas cheias propagam a fome

Cheias da rica idiossincrasia

Vazias pela pobreza insone

Para quem as panelas batem?

Por que as panelas batem?

Para que as panelas batem?

Por quem as panelas batem?

Batem, ecoam abundância de palavras

Batem, propagam insignificância de ideias

Cheias da rica moralidade infantil

Vazias do pobre! Mortalidade juvenil

Para quem as panelas batem?

Por que as panelas batem?

Para que as panelas batem?

Por quem as panelas batem?

Para quem as panelas batem?

Para aqueles que os sinos canarinho dobram

Badaladas da nova política de ferrugem

aMÉMzada da comunhão de broderagem

Som metralhado nos que os direita entortam

Por que as panelas batem?

Batem, porque estão cheias de ódio

Batem, pois não latem, mas

Aplaudem a ignorância no pódio

Para que as panelas batem?

Batem para abater

Batem para asfixiar

Batem para matar

Batem para tolher

Por quem as panelas batem?

Batem pela pátria

Batem pelo horror

Batem pela bala

Batem pelo louvor

Batem, batem, batem...

Batem, latem, batem...

Batem, orem, batem...

Batem, ordem!: -Matem!

 

Por Bruna Argôlo

domingo, 24 de outubro de 2021

 A partida da minha mãe deixou-me um gosto de manga caída do pé. Essa manga, mesmo madura e doce, era amassada na parte escondida na terra. Não foram todos os anos de boa relação. Foram lindas as lembranças de quando criança, chamava-me de Pedra 90 da casa. A vida adulta trouxe severidade entre as ideias, conflitos que o tempo fez em farrapos amarelos temperados de doce. Mas manga é a minha fruta favorita, era uma das suas também. Eu brindo essa lembrança com o sabor remoso-alegre da manga e do gosto saudoso do pé de manga que havia em sua casa há alguns anos.

De João Cabral de Melo Neto para a minha mãe

A covid comeu seu nome, seu CPF, seu semblante. A covid comeu sua certidão de nascimento, de casamento, sua ascendência, o seu corpo material. A covid veio e comeu todos os cartões com o seu nome.


Faminta, a covid devorou a sua vaidade, o seu rancor, a sua gana de viver. Faminta ainda, a covid devorou as suas unhas esmaltadas, o seu nariz afilado, a sua risada generosa que mais parecia uma gaitada.

A covid comeu sua paz e sua guerra. Seu dia que era noite. A covid comeu o seu acalento com o meu pai. A covid comeu o seu cuidado amoroso. A covid comeu a sua diabete, a sua osteoporose, a sua dor.

A covid devorou quase tudo. Comeu suas palavras, o seu sanguíneo temperamento e o seu medo da morte. A covid não conseguiu comer tudo o que queria: Não comeu a sua vida, não comeu o seu amor. Afinal, a covid, mesmo faminta, não conseguiu comer todo bem espe(a)lhado por você! A covid não te devorou
O amor dentro de nós devorou todo o furor da covid dentro do seu ser.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

 

Manifesto Ipê Cor de Pequi

 

Tatuado na abóbada empoeirada
Destaque entre os matizes de azul
Reina o Ipê Cor de Pequi
Na celebração do anavalhado concreto armado

 

Resiliente ante à secura nauseante
E ferozmente delicado na paisagem laranja
Protesta o Ipê Cor de Pequi
Na musicidade anárquica dos grilos do centro oeste

 

Resplandecente pelas copas abarrocadas
E sabor acre para os empreendimentos pálidos
Atesta o Ipê Cor de Pequi
A arabesca modernidade da natureza candanga

 

Desnorteada entre tesouras cegas
Amado pela sua neoclássica lourice
Inspira o Ipê Cor de Pequi
A dançante anacronia do espaço-sideral

 

Carimbado em cada curva burocrática
E registrada na vida e morte primaveril
Encerra o Ipê Cor de Pequi
A stravinskiana passagem para a  Chuva Cor de Grená

                               



https://youtu.be/iQN4ehFmAYM

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020


Poesia é sentimento Poema é coração que dilata a pupila
É ação, um estado
Fenômeno da natureza dentro do peito
Eu, poema
Tu? Poeme-se!



quinta-feira, 27 de agosto de 2020


T
entava antes me alicerçar com os poucos cascalhos que sobraram...

Mas o seu carinho tem feito em mim uma casca mais resistente

Feita de coragem, paixão e determinação

É o encontro do magma com a água - Áries e Escorpião -
Explosão de sensações que se solidifica mais e mais a cada encontro

E os cascalhos? Viraram poeira estelar no espaço das memórias

terça-feira, 30 de junho de 2020

Artemisa e Cronos

Eu busco a liberdade como a mariposa ronda o calor da lâmpada As minhas emoções são a minha bússola, Que queimam a sua solidez com ferro em brasa - sem querer Não quero te machucar Com esses sentimentos - sempre em queda livre e sem pára-quedas
Quero apenas que possa me amar Com asas forjadas pela coragem Tomando o vento no rosto qual um aventureiro Mas com o coração envolto pelo calor da liberdade
Me dou (dôo/doo) e (mas) aceito o seu tempo

Havia pouco espaço em um copo de água Que transbordava a essência tempestuosa do meu ser Não peço licença, sou a fúria inconsequente da correnteza Arrastando a casa e as copas musicais do seu ser Inundando de escarlate essas artérias envidraçadas Pessimistas de sua teimosia
Esse é o encontro da água com a terra, um caótico envolvimento

Obra: Gustav Klimt

segunda-feira, 15 de junho de 2020

É na efemeridade dos momentos
Que eternizo as mais belas lembranças
Se tu tiveres a boca cheia de beijos, não digas nada: Eternize-me!

Obra de SeniorCoconut

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Meu corpo

Meu corpo foi espelho para ser mal interpretado
Meu corpo carregou hachuras de preconceito
Meu corpo foi o peso do martelar de julgamentos

Mas apesar de tudo, hoje...

Meu corpo não é apenas um corpo
Meu corpo é o borboletar da minha imaginação
Meu corpo é sentimento, a tela das cores da minha personalidade
Pois hoje, meu corpo é a pá que enterrou ressentimentos


sábado, 1 de fevereiro de 2020

Meu luto


O meu luto era um céu ensolarado visto por uma janela azul que quase nunca se abria
O meu luto era um gato preto engraçado brincando com outro gato branco manhoso
O meu luto tinha gosto de amêndoas do croissant rindo da fidalguia que não existia
O meu luto tinha também o gosto quadriculado do bolo xadrez e da fofura do Lollo
O meu luto tinha cheiro da maresia do meio da noite da orla de Olinda


O meu luto tinha jeito de menino com uns olhos de brilho amavelmente castanhos
O meu luto tinha os cabelos caoticamente encaracolados e uma barba sempre por fazer
O meu luto tinha a preguiça de acordar cedo para aproveitar o café da manhã
O meu luto era alegre e ria com um gosto que me fazia rir junto
O meu luto foi companheiro, foi piadista, mas também o melhor dos amantes


O meu luto me acalentava parcimoniamente, mas também lambia os seios com paixão
O meu luto me enveuzava com beijos, com cheiros, com cosquinhas, uma delícia
O meu luto me metia e quase não se segurava, me fazia as pernas desequilibrarem
O meu luto gostava de me ver nua e eu notava pelas sinuosidade, sempre ascendente
O meu luto nasceu sob o céu em escorpião, eu idem: feitos no signo da luta, cada um ao seu modo.


Mas sobretudo:
O meu luto me amou e eu amo o seu cheiro de sol, as ondas da sua morenice
O meu luto sofreu pelos milhas de distância, mas ainda me amou
O meu luto, eu o amo pelo jeito maroto de criança, amo o amigo, o filho, o pai e o amante
O meu luto é um carnaval antigo, sou a única passista do baile, a única participante
Desse luto que aguarda o fim da tristeza na próxima quarta-feira de cinzas

sábado, 4 de janeiro de 2020

Se eu fosse um bicho...

Se eu fosse um bicho,
A hibridez de espécie me caracterizaria
Uma puma celestial,
Uma ave de rapina com pernas
Para correr pelas veredas de asfalto e sobrevoar pelos seus sonhos mais altos